Cultura

Do curtume ao closet: como o couro é feito, etapa por etapa

Da pele crua ao couro macio da sua jaqueta são dezenas de etapas, muita água e muita química. Veja o caminho completo.

Tanques de tingimento coloridos de um curtume tradicional vistos do alto
Foto: @henryren / Unsplash

Em 30 segundos

  • O couro nasce como subproduto da indústria da carne e passa por dezenas de etapas até virar peça de moda.
  • Na ribeira, a pele é limpa, perde os pelos e é dividida em flor e raspa.
  • O curtimento, com sais de cromo ou com taninos vegetais, é o que impede a pele de apodrecer.
  • Depois vêm tingimento, engraxe, secagem e acabamento, que definem a cor, a maciez e a aparência final.
Neste guia
  1. Antes do curtume: a pele chega
  2. Ribeira: preparar a pele
  3. Curtimento: o momento em que a pele vira couro
  4. Do wet blue ao couro macio
  5. Secagem, amaciamento e acabamento
  6. Água, química e o lado ambiental
  7. Por que o processo explica o preço
  8. Perguntas frequentes

Quando você passa a mão numa jaqueta de couro macia, está tocando o resultado de dezenas de etapas, muita água, muita química e semanas de trabalho. A pele que saiu de um frigorífico chegou ao curtume salgada, dura e com pelos. Se nada fosse feito, apodreceria em poucos dias. Entender como o couro é feito explica por que existem tantos tipos de couro, por que alguns custam o triplo de outros e por que a indústria do curtume está no centro dos debates sobre sustentabilidade.

O caminho a seguir usa os nomes que os próprios curtumes brasileiros usam, com a tradução para quem nunca pisou num deles.

Antes do curtume: a pele chega

Quase todo o couro do mundo é um subproduto da indústria da carne. As peles são retiradas no frigorífico e, para não estragarem na viagem, são salgadas ou levadas rapidamente ao curtume, ainda frescas. Nessa fase, cada pele já é examinada: cortes, carrapatos, cercas de arame farpado e marcas a ferro deixam defeitos que vão influenciar o destino dela. As melhores viram couros de flor integral; as mais marcadas, couros corrigidos e pigmentados.

Ribeira: preparar a pele

A primeira grande fase se chama ribeira. É a mais pesada, a mais molhada e a que mais exige tratamento de efluentes.

  1. Remolho. As peles passam horas em grandes tambores giratórios com água, para reidratar, perder o sal e soltar a sujeira.
  2. Depilação e caleiro. Uma mistura alcalina, tradicionalmente à base de cal, solta os pelos e incha as fibras da pele, abrindo a estrutura para as próximas etapas.
  3. Descarne. Uma máquina remove a gordura e os restos de carne do lado de dentro da pele, o carnal.
  4. Divisão. A pele inchada passa por uma máquina de lâmina de precisão que a separa em duas camadas: a de cima, com a flor, e a de baixo, a raspa. É aqui que nasce a diferença entre os couros mais nobres e os mais simples.
  5. Desencalagem e purga. A cal é removida e enzimas limpam as fibras, deixando a pele mais lisa e uniforme.
  6. Píquel. Um banho com sal e ácido prepara a pele para receber o agente curtente.

A anatomia da pele e as camadas que saem da divisão estão ilustradas no guia tipos de couro.

Curtimento: o momento em que a pele vira couro

Curtir é estabilizar as fibras de colágeno para que elas não apodreçam, não endureçam e resistam ao calor e à água. Existem dois grandes caminhos.

Ao cromo. É o método mais usado no mundo, responsável pela grande maioria do couro produzido. Sais de cromo trivalente se ligam às fibras em poucas horas, dentro dos tambores. O couro sai úmido e com um tom azul-claro característico, por isso essa fase se chama wet blue. O resultado é um couro macio, leve, estável e resistente ao calor, ideal para roupas, sapatos e bolsas. O Brasil, aliás, é um grande exportador de couro nessa etapa.

Vegetal. O método mais antigo usa taninos, substâncias extraídas de cascas e madeiras, como a acácia-negra, cultivada no Rio Grande do Sul, e o quebracho, árvore da América do Sul. O processo é mais lento: os curtumes modernos levam dias ou semanas, e o curtimento tradicional em tanques podia levar meses. O couro sai firme, encorpado, em tom natural de caramelo, e desenvolve a pátina mais bonita com o uso. É a base de cintos, solas, selas e muitas bolsas artesanais.

Há ainda os curtimentos sem cromo com outros agentes, que produzem o chamado wet white, um couro claro procurado por marcas que querem peças livres de cromo.

Do wet blue ao couro macio

O couro curtido ainda não está pronto. Ele passa por uma sequência de ajustes que definem as características finais:

  • Enxugamento e rebaixamento: a água sai sob pressão, e uma máquina raspa o lado de dentro até a espessura exata desejada, seja para uma jaqueta fina, seja para uma bota encorpada.
  • Recurtimento: um segundo curtimento, às vezes combinando cromo, taninos vegetais e sintéticos, ajusta firmeza, enchimento e toque.
  • Tingimento: corantes penetram nas fibras dentro dos tambores, dando a cor de base.
  • Engraxe: óleos são incorporados às fibras para que elas deslizem umas sobre as outras. É essa etapa que torna o couro macio e flexível; sem ela, ele secaria duro como papelão. É também por isso que o couro resseca quando perde esses óleos, como explica o guia couro ressecado.

Secagem, amaciamento e acabamento

O couro tingido e engraxado é seco esticado, a vácuo ou preso em quadros, para não encolher. Depois passa por máquinas que batem e flexionam as fibras até chegar ao toque desejado.

O acabamento define a aparência final. Um couro anilina recebe pouco ou nada por cima e mostra a superfície natural. Um couro pigmentado recebe camadas de tinta e proteção. Há também o lixamento que cria o nobuck, as prensas que estampam o desenho de grão ou imitam outros animais, as ceras e os óleos dos couros pull-up. Por fim, cada pele é medida, geralmente por área, e classificada pela qualidade.

Tanques de pedra com peles e trabalhadores num curtume tradicional
Tanques de curtimento tradicionais: processos que atravessam séculos ainda convivem com a indústria moderna. Foto: @mdabrown / Unsplash

Água, química e o lado ambiental

Curtir couro consome muita água e gera efluentes com sal, cal, sulfetos, matéria orgânica e, no caso do cromo, resíduos que precisam ser tratados com rigor. Em curtumes bem geridos, a água passa por estações de tratamento, o cromo pode ser recuperado e reaproveitado e os resíduos sólidos têm destino controlado. Em lugares com fiscalização fraca, o mesmo processo já provocou contaminação grave de rios e de trabalhadores.

É por isso que certificações ambientais e a rastreabilidade das peles ganharam importância. O tema, com os argumentos de todos os lados, está em couro é sustentável?.

Por que o processo explica o preço

Agora fica mais fácil entender por que duas peças de couro custam tão diferente. Uma pele sem marcas, que pode virar flor integral, é mais rara e mais cara. Um curtimento vegetal leva mais tempo. Um acabamento anilina exige a melhor matéria-prima, porque não esconde nada. Já um couro corrigido e pigmentado aproveita peles com defeitos, e a raspa aproveita a camada de baixo. Cada etapa deixa a sua marca no preço e na durabilidade. Para saber o que procurar na hora da compra, veja como escolher uma jaqueta de couro que dure 20 anos e as capitais do calçado, onde boa parte desse couro vira produto no Brasil.

Perguntas frequentes

Quanto tempo leva para fazer couro?

Em um curtume moderno, com curtimento ao cromo, a pele pode virar couro acabado em algumas semanas, contando todas as etapas e a secagem. No curtimento vegetal tradicional, só a etapa de curtir pode levar semanas ou meses.

O cromo do couro faz mal à saúde?

O couro é curtido com cromo trivalente, uma forma estável usada há mais de um século. O risco está em processos mal controlados, que podem gerar cromo hexavalente, uma forma tóxica. Por isso existem limites legais e testes em vários países. Pessoas com alergia a cromo podem preferir couros de curtimento vegetal ou livres de cromo.

Por que o couro wet blue é azul?

Porque os sais de cromo usados no curtimento dão ao couro um tom azul-claro. Ele é tingido depois, na fase de acabamento, e a cor azul desaparece.

Todo couro vem da indústria da carne?

A imensa maioria, sim: o couro bovino, o mais usado, vem de animais criados para corte. Peles de peixe também são aproveitadas da indústria de alimentos. Couros exóticos, como os de jacaré, têm cadeias próprias e dependem de licenças ambientais.

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Redação Manual do Couro

Pesquisamos fontes técnicas, a legislação e a prática de quem trabalha com couro, e explicamos o porquê de cada recomendação. Viu algo que merece correção? Fale com a gente · Como trabalhamos