Cultura

Franca, Novo Hamburgo e Birigui: as capitais do calçado e o Brasil do couro

Botinas de Franca, sapatos do Vale dos Sinos, calçado infantil de Birigui: o mapa das cidades que fizeram do Brasil uma potência.

Mãos de um artesão trabalhando em um calçado montado na forma
Foto: @ra_oul / Unsplash

Em 30 segundos

  • O Brasil tem um dos maiores rebanhos bovinos do mundo e está entre os grandes exportadores de couro.
  • Novo Hamburgo é a capital nacional do calçado; Franca, do calçado masculino; Birigui, do infantil; Jaú, do feminino; Nova Serrana, do esportivo.
  • No sertão, o couro virou armadura do vaqueiro e símbolo cultural, do gibão ao chapéu de Luiz Gonzaga.
  • Peles de tilápia e de pirarucu, antes descartadas, viraram couro de moda e até curativo para queimaduras.
Neste guia
  1. Um país que vive de couro
  2. Novo Hamburgo e o Vale dos Sinos
  3. Franca: das selas às botinas
  4. Birigui, Jaú e Nova Serrana
  5. O couro do sertão: armadura de vaqueiro
  6. Peixe também vira couro
  7. Como comprar direto dos polos
  8. Perguntas frequentes

Pegue um sapato de couro feito no Brasil e é bem provável que ele tenha nascido em uma de poucas cidades. O país construiu, ao longo de um século e meio, polos inteiros dedicados ao couro e ao calçado, cada um com a sua especialidade e o seu título de capital. Conhecer as capitais do calçado é entender como imigrantes, tropeiros, vaqueiros e fábricas transformaram o Brasil numa potência do couro, e também descobrir onde comprar direto da fonte.

Um país que vive de couro

O ponto de partida é o rebanho. O Brasil tem um dos maiores rebanhos bovinos do mundo, com mais de 230 milhões de cabeças, e o couro é um subproduto dessa cadeia. Boa parte dele é exportada: segundo o setor curtidor, as exportações de couro somaram cerca de US$ 1,26 bilhão em 2024, com China, Estados Unidos e Itália entre os principais compradores. Muito sai do país na fase chamada wet blue, logo depois do curtimento, como explica o guia como o couro é feito.

O resto alimenta uma indústria calçadista gigante. O Brasil é frequentemente apontado pela associação do setor como o maior produtor de calçados fora da Ásia. E essa produção se concentra em polos com história própria.

Novo Hamburgo e o Vale dos Sinos

A história começa no Rio Grande do Sul, com os imigrantes alemães que chegaram à região de São Leopoldo a partir de 1824. Muitos traziam ofícios ligados ao couro, como sapateiros e seleiros, e encontraram ali um território de pecuária e de curtumes. Ao longo do Vale do Rio dos Sinos, as oficinas viraram fábricas, e as fábricas, uma indústria inteira.

Novo Hamburgo ganhou o título de Capital Nacional do Calçado. A cidade criou, nos anos 1960, a Fenac, uma das primeiras grandes feiras de calçado do país, e abriga o Museu Nacional do Calçado. A vizinha Estância Velha, com a sua tradição em curtumes, é conhecida como Capital Nacional do Couro. Hoje, o Vale dos Sinos reúne fábricas de calçados, de componentes, de máquinas e de químicos para couro: um ecossistema completo.

Franca: das selas às botinas

No interior de São Paulo, Franca nasceu num caminho de tropeiros que levava gado e mercadorias para Goiás. Onde passa gado, há couro, e onde há couro, há seleiros e sapateiros. A tradição artesanal de arreios, selas e botinas se industrializou ao longo do século 20 e transformou Franca na Capital Nacional do Calçado Masculino.

A cidade é conhecida especialmente pelos sapatos sociais e pelas botinas de couro, aquelas de elástico lateral e bico arredondado que viraram símbolo do campo. O guia tipos de bota de couro mostra como a botina se diferencia da chelsea, sua prima urbana.

Sapateiro idoso sentado ao lado de suas ferramentas de trabalho
Nos polos calçadistas, o ofício passa de geração em geração. Foto: @oldsoulframes / Unsplash

Birigui, Jaú e Nova Serrana

Birigui: o calçado infantil

No noroeste paulista, Birigui se especializou em calçados para crianças e ganhou o título de Capital Nacional do Calçado Infantil. Boa parte dos primeiros sapatos e tênis das crianças brasileiras sai de lá.

Jaú: o calçado feminino

Também no interior de São Paulo, Jaú construiu fama com sandálias, sapatos de salto e calçados femininos e é conhecida como a Capital do Calçado Feminino. A cidade tem um polo de lojas de fábrica que atrai compradores de todo o estado.

Nova Serrana: o tênis

Em Minas Gerais, Nova Serrana se tornou a Capital Nacional do Calçado Esportivo, com centenas de fábricas, em sua maioria pequenas e médias, dedicadas a tênis e calçados esportivos.

Nas últimas décadas, o mapa se ampliou para o Nordeste. A partir dos anos 1990, grandes fábricas se instalaram em estados como Ceará, Paraíba e Bahia, que hoje estão entre os maiores produtores e exportadores de calçados do país.

O couro do sertão: armadura de vaqueiro

Muito antes das fábricas, o couro já era vital no sertão nordestino. Para tocar o gado no meio da caatinga, cheia de galhos secos e espinhos, os vaqueiros criaram uma verdadeira armadura de couro: o gibão, uma jaqueta grossa, o guarda-peito, as perneiras, as luvas e o chapéu. Era equipamento de sobrevivência, feito à mão, muitas vezes com couro de bode e de boi curtido de forma artesanal.

Essa indumentária virou símbolo cultural. O chapéu de couro se tornou marca registrada de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, e a Missa do Vaqueiro, celebrada desde 1971 em Serrita, no sertão de Pernambuco, reúne todo ano vaqueiros vestidos com seus trajes. As alpercatas de couro e a estética do cangaço, com seus chapéus decorados e bornais, completam um capítulo que nenhuma passarela inventou.

Peixe também vira couro

O Brasil é um dos grandes produtores de tilápia do mundo, e por muito tempo a pele do peixe era simplesmente descartada. Curtida, ela vira um couro fino, com desenho de escamas, resistente e com cara de material exótico, usado em bolsas, sapatos e acessórios. Na Amazônia, a pele do pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do planeta, vem da pesca manejada e virou matéria-prima de luxo.

A pele de tilápia ganhou ainda um papel inesperado na medicina. Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará desenvolveram o uso da pele tratada como curativo biológico para queimaduras, e o uso em pacientes foi aprovado pela Anvisa em 2025. A discussão sobre materiais como esse no debate ambiental está em couro é sustentável?.

Como comprar direto dos polos

  • Lojas de fábrica: Franca, Jaú, Birigui, Nova Serrana e as cidades do Vale dos Sinos têm lojas de fábrica e outlets, com preços menores e, às vezes, peças de coleções anteriores.
  • Feiras do setor: as grandes feiras são voltadas para lojistas, mas mostram tendências e marcas que depois chegam ao varejo.
  • Pequenos fabricantes e artesãos: muitos vendem pela internet. Peça informações sobre o couro, a espessura e a construção do calçado.

Antes de comprar, vale saber identificar o material e a qualidade. Os guias como saber se é couro legítimo e tipos de couro ajudam na hora da escolha.

Perguntas frequentes

Qual é a capital nacional do calçado?

Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, é conhecida como a Capital Nacional do Calçado. Franca, em São Paulo, é a Capital Nacional do Calçado Masculino.

Por que Franca é a capital do calçado masculino?

A cidade nasceu numa rota de tropeiros e de gado, o que criou uma tradição de seleiros e sapateiros. Ao longo do século 20, essas oficinas se industrializaram e se especializaram em sapatos e botinas masculinos.

O Brasil exporta couro ou sapato?

Os dois. O país exporta muito couro, inclusive em fases intermediárias do processo, e também calçados prontos. Uma parte importante do couro brasileiro abastece a própria indústria calçadista nacional.

Couro de peixe é resistente?

Surpreendentemente, sim. A pele de peixe tem fibras dispostas de forma cruzada, o que dá boa resistência mesmo com pouca espessura. Bem curtido, é usado em bolsas, carteiras e calçados.

Fontes e leituras

#calçados#Brasil#história

Redação Manual do Couro

Pesquisamos fontes técnicas, a legislação e a prática de quem trabalha com couro, e explicamos o porquê de cada recomendação. Viu algo que merece correção? Fale com a gente · Como trabalhamos